Sexta, 15 Agosto 2025 09:46

Mães que criam: Residência Ressoar fortaleceu identidade e trabalho de artistas mães no sul do Brasil

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Semana de imersão combinou vivências culturais, criação artística e cuidado compartilhado com as crianças

Como seria se mulheres que são artistas e mães tivessem à sua disposição um espaço de criação, em que a maternidade não fosse obstáculo, mas parte das suas trajetórias artísticas? Buscando tornar essa experiência possível, São Lourenço do Sul recebeu entre os dias 28 de julho e 3 de agosto a temporada inaugural do “Programa de Residência Artística Ressoar – 1ª edição: artistas mães”, no Recanto Carahá.


Edi PatzlaffGiordana Winckler e Lu Goulart são as artistas visuais que foram selecionadas por convocatória pública. O projeto foi uma realização do coletivo e casa de arte Alumiar, que contou com o apoio da Secretaria da Cultura do Estado do Rio Grande do Sul (Sedac/RS) e o financiamento do Ministério da Cultura (MinC), por meio da Política Nacional Aldir Blanc. 


Ao longo da residência, o trio desenvolveu pesquisas em diálogo com o território, a natureza e os saberes tradicionais. A programação incluiu formações, roda de conversa com a comunidade cultural do município e visitas à aldeia Mbyá Guarani Tekoá Tavaí e à família Gonçalves da Pecuária Garupa, em Cristal; e ao Ponto de Memória Quilombo Maria Lina, em São Lourenço do Sul.


A iniciativa, inédita no estado, também acolheu os filhos das participantes, oferecendo uma programação paralela voltada a eles, o “Ressoar Infâncias: Iniciação em Artes”, com ações lúdicas e educativas inspiradas em diferentes linguagens artísticas. A proposta foi realizada durante o recesso escolar e oportunizou que as artistas também fossem acompanhadas por uma pessoa de sua rede de apoio, reconhecendo os desafios que muitas mulheres enfrentam para conciliar a maternidade com a prática artística.


Impressões das residentes


Edi e Lu contam que nunca haviam participado de uma experiência de imersão semelhante e consideram que a oportunidade foi muito importante em suas trajetórias. “Me senti acolhida dentro da realidade que é ser mulher e mãe-artista. Isso dentro de um recorte social é relevante, porque criar é político. Nós mulheres mães exercemos o trabalho do cuidado diariamente, logo, criamos o filho, mas muitas vezes não temos tempo para criar além da criança. Nossos projetos ficam inacabados dentro de realidades distintas. Falo aqui de arte, mas isso se estende a outros campos”, afirma Edi. 


Lu entende que a residência Ressoar fortaleceu seu trabalho como artista-gestora-pesquisadora. “Foi um marco de escuta, afeto e articulação. Ressoei com as memórias dos territórios e encontrei eco nas práticas das mulheres que conheci. Essa experiência se conecta profundamente à arte contemporânea, ao romper com os centros hegemônicos, valorizar as poéticas periféricas e visibilizar corpos e saberes silenciados”, diz. 

Ela pontua que estar na residência ao lado de seu filho, um jovem negro, além de um gesto afetivo, foi também político. “Sua presença em um espaço de criação e escuta ressignificou o pertencimento. Compartilhar esse tempo e território foi um ato de reparação, afirmando que famílias negras também constroem os modos de existir e criar na arte contemporânea”, aponta. Lu também acrescenta que dividir o cotidiano com outras mães artistas, seus saberes, sotaques e formas de maternar foi um aprendizado imensurável. 

Giordana, que completa o trio de artistas participantes da residência, destaca o espaço-tempo proporcionado pelo projeto, realizado em diferentes pontos da Costa Doce, no sul do Rio Grande do Sul. Inserida em uma paisagem interiorana, a experiência lhe trouxe importantes reflexões sobre as mulheres que vivem nestes locais. “Trata-se de uma paisagem poética, bordada no tempo do cuidado, da escuta e da criação, que nasce da relação sensível e política dessas mulheres com o território. Seus fazeres cotidianos, bem como bordar, tramar, cozinhar, plantar, acolher, costuram uma forma de existência onde também é possível vislumbrar espaços de fruição, liberdade e respiro”, elabora. 


Ela também compartilha as percepções que teve nos encontros com mulheres do campo, oportunizados pelas vivências nas comunidades tradicionais. “Muito se projeta sobre as mulheres do campo, há estigmas que as associam à ignorância, à subordinação ou ao atraso. No entanto, o que encontrei no contato com elas foi o oposto: saberes, força criadora e uma potência silenciosa que atravessa gerações. Nessa convivência, o fazer manual não é apenas meio de subsistência, mas também instrumento de pertencimento, memória e resistência”, frisa.


Uma dessas mulheres é a artesã lourenciana e mestra griô Vera Macedo, responsável pela vivência no Ponto de Memória Quilombo Maria Lina, em que as artistas conheceram parte da história do povo negro de São Lourenço do Sul e o processo de tramas de palha. Para Vera, a realização de projetos em conjunto com a comunidade local é fundamental para o aprendizado mútuo entre as partes envolvidas. “Para nós, enquanto grupo afro-lourenciano, são muito interessantes e importantes esses projetos que fazem essa integração com a história do povo negro e quilombola de São Lourenço, porque nos ajudam também a divulgar o nosso trabalho”, entende. Ela conta que ficou muito feliz em receber o trio de residentes. “Cada uma com uma vivência, com uma caminhada. Então a troca foi boa e bonita, tanto por elas me conhecerem e conhecerem a história negra, como eu também conhecer as histórias delas”, afirma.


Conheça mais os promotores da iniciativa


Alumiar é o único espaço cultural independente dedicado às artes visuais na região centro-sul do estado gaúcho. A casa tem um acervo de arte contemporânea com mais de 100 obras, de 60 artistas, com paridade de gênero. O espaço, coordenado pelos artistas visuais Ana Flor e Fábio Abbud, existe desde 2011, com atividades desde 2013 no município de Cristal.  Acompanhe o coletivo e casa de arte Alumiar no Instagram @alumiar_atelie ou em seu site oficial.

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Programa de Residência Artística Ressoar – 1ª edição: artistas mães
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