Sexta, 07 Junho 2019 15:42

Carmem Camino - A Ilusão da manipulação da linguagem (de novo Neymar)

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Carmen Camino - Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. - Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
Vem à tona novamente o nosso “menino” Neymar às voltas com outra “menina” que o acusa de estupro. Mas, não vou falar a respeito das versões dos “garotos”, a “garota” que se diz violentada, o “garoto” que tenta demonstrar ter se envolvido numa armadilha tramada por uma periguete.  Isso é caso de polícia, depois para a justiça resolver, e para alimentar infindáveis debates apaixonados nas redes sociais, onde o machismo e o feminismo servem de argumento para um e outro lado, além dos gozadores de sempre que, na falta de coisa mais útil para os ocupar, dedicam-sea fazer piada de tudo. 
Meu propósito é outro e já é possível intuí-lo nas expressões “menino”, “menina” e “garotos” destacadas entre aspas.
Na onda do politicamente correto, ou na vã tentativa de negar o que é óbvio no curso da vida, ou ainda  segundo eu vislumbro -  socorrendo-me de um grande jurista uruguaio, Oscar Ermida Uriarte – na manipulação intencional da linguagem, cada vez mais somos levados a amenizar o impacto semântico das palavras. Os empregados, que tem sua força de trabalho explorada pelo empregador, passam a ser identificados como colaboradores. À designação de “pais”, que traz em si os atributos da autoridade e do ônus de educar e dar exemplo, preferimosvê-los como amigos, companheiros e, não raro, cúmplices dos filhos. Os professores dos cursos fundamentais passaram a ser tios e tias e, há muito,  desistiram de exercer autoridade porque recebem alunos que não a conheceramcomo filhos. O mundo corporativo tem enfrentado dificuldades para integrar em seus quadros jovens altamente preparados no campo do conhecimento, mas sem nenhuma empatia, nem tolerância a coisas como hierarquia, chefia, disciplina interna e outros quesitos indispensáveis para que uma empresa funcione.
Impressiona-me, especialmente, e a propósito do noticiário em torno do Neymar, a tentativa generalizada de atenuar o impacto da palavra quando seu significado diz respeito aos efeitos da inexorável passagem do tempo em nossas vidas. Há uma negação inconsciente do que o tempo significa na vida de cada um de nós, especialmente, em relação aos seus efeitos fisiológicos, afetivos, psicológicos e sociais e aos papéis que temos que assumir em cada uma de suas fases. Ao tratarmos as crianças como nossos iguais, “companheiros” ou “amiguinhos”, nos omitimos de educá-las, de exercer sobre elas nossa autoridade, de utilizarmos o “não” no momento certo, preparando-as para a vida futura em que elas terão que cumprir leis, integrar-se em grupos legitimamente hierarquizados e na qual ouvirão muitos nãos. Ao prolongarmos indefinidamente a adolescência e a juventude, negamo-nos a enfrentar os desafios naturais da vida adulta. Ao definirmos a velhice como a melhor idade adquirimos a ilusão de que ela não existe.
Se o prezado leitor se dedicar a uma avaliação crítica do noticiário que monopoliza a mídia, a moça que, aos vinte e seis anos, se diz vítima de estupro, é invariavelmente tratada como “menina” ou “garota”. Neymar, por sua vez, já foi consagrado na imprensa como “menino Neymar”. Estamos diante do exemplo concreto, perfeito e acabado, da “manipulação da linguagem”, em busca da negação do andar natural da vida. Meninas e meninos são as crianças às quais nos igualamos ao nos furtar da nossa posição hierárquica. Adolescentes nada mais são do que meninos e meninas inimputáveis porque achamos que ainda não cresceram. Jovens são tratados como adolescentes inseguros, presos até os quarenta anos à barra das nossas calças e saias porque, como pais, não os preparamos para a vida adulta. E aos velhos negamosa velhice, ao tratá-los pelo eufemístico “idosos” e convencê-los de que estão a viver uma esfuziante “melhor idade”. A moça de 26 anos que se envolveu com Neymar é mulher feita. Neymaré  homem feito, ambos adultos com toda a sua estrutura física e mental plenamente desenvolvida. Não são meninos, nem garotos. E eu, aqui no computador, redigindo este artigo, com 74 anos bem vividos, estou em plena velhice, e não numa alucinante  e ilusória melhor idade.
Pensemos, então, nas funestas consequências de “adultizar” as crianças, “infantilizar” os adolescentes, “adolescer” os adultos e “juvenilizar” os velhos. A vida real não aceita essas tentativas ideológicas de negar a verdade nua e crua: no nascimento começamos o inexorável caminho que nos levará à morte, no curso do qual teremos que enfrentar a realidade de cada uma de suas etapas, com suas benesses e suas vicissitudes, suas alegrias e suas tristezas, suas vitórias e suas derrotas, enfim, essa intrigante e desafiante aventura de viver. Se enfrentarmos com olhos de realidade as dores do crescimento inexorável, e delas retirarmos as lições que nos preparam para a etapa seguinte, cuidando da nossa saúde física e mental, certamente viveremos melhor, teremos mais ganhos do que perdas, sem a ilusão de estarmos sempre na etapa anterior à que a vida nos obriga – queiramos ou não –enfrentar.
E que Neymar e sua suposta vítima tirem as lições que a imaturidade de ambos está a lhes aplicar.

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